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Psicanálise

Blog do psicanalista

Pedro Corrêa

A transição conturbada no movimento psicanalítico

A década de 1960 foi repleta de movimentos de contestação ao status quo em todo o mundo. Na Psicanálise, em meio à crítica geral das instituições, surgiram diversas novas associações de psicanalistas. Uma das contestações lançadas pela juventude estudantil, que estava nas ruas combatendo o autoritarismo em toda linha, pode ser resumida na seguinte pergunta “Quem tem acesso ao método de tratamento criado por Sigmund Freud?


Eu mesmo respondo: pouca gente tinha. Era uma época em que as exigências colocadas pela IPA – sigla em inglês pela qual é conhecida a Associação Internacional de Psicanálise (entidade fundada por Sigmund Freud e seus primeiros discípulos objetivando preservar e difundir a nova ciência) – para que um tratamento fosse considerado verdadeiramente psicanalítico reduzia seu acesso a pequenos círculos próximos a ela própria. A formação de psicanalistas era igualmente restrita na IPA, com processos seletivos e hierarquias obscuras.


Contrastando com o dinamismo da abertura à novidade dos anos iniciais do movimento psicanalítico e do movimento rebelde dos anos 1960 em voga, o padrão "ouro” de tratamento propagado pela IPA consistia, entre outras exigências, em sessões pelo menos quatro vezes por semana e com duração entre 45-50 minutos. Quem poderia se encaixar nesse esquema? O tratamento padrão permanecia congelado no final do século XIX.


De lá para cá, muita coisa mudou dentro da Psicanálise. Ouso dizer que os rótulos de “tratamento para as elites”, “para a classe média”, “para os ricos” etc. foram ultrapassados, estão fora da realidade.


Novas associações foram surgindo ao longo das últimas décadas, que cravaram raízes no ensino universitário e na formação de novos psicanalistas. Um riquíssimo diálogo com a tradição freudiana foi aberto, criando espaços para novas herdeiras dessa tradição. A IPA segue com uma direção vigilante aos "desvios". Com algumas alterações pontuais nos currículos, entretanto, divulga-se como democrática.


A IPA não tem mais o direito de reivindicar a guardiã da “Psicanálise”, mesmo que tenha sido fundada por Freud. Apontar-se como a única filha do “pai” não resolve tudo. Seu caráter hermético e burocrático à tirou, pouco a pouco, da cabeça do movimento. A onipotência encarnada pela sua direção abandonou jovens clínicos e fomentou as dissidências que a deixou para trás, ou ao menos para o lado delas.


Portanto, sem a existência de uma instituição oficial com legitimidade para regular um padrão "ouro" e com a difusão de novos grupos, o acesso ao tratamento com Psicanálise ampliou-se, e muito. Universidades, institutos, escolas, entre grupos outros, continuam estabelecendo iniciativas clínicas. Além disso, há psicanalistas presentes em clínicas privadas, em presídios, escolas, hospitais etc.


Apesar da descentralização internacional da formação de novos psicanalistas facilitar a ação de oportunistas e charlatões de todo o tipo, a centralização burocrática do passado não é o melhor meio de combatê-los. Cabe aos psicanalistas associados fazer balanços e apontar soluções. No Brasil, devemos resistir à centralização recente tentada por grupos religiosos junto ao Estado para regular e controlar a Psicanálise, como pelo Projeto de Lei nº 101 de 2018.


Novos rearranjos são esperados nesse que considero ser um período de transição conturbado entre um velho e um novo status quo do movimento psicanalítico. Experimentando o “declínio” de uma velha ordem não só nele, mas também na política e na economia mundial, os psicanalistas precisam estar associados para melhor se prepararem para intervir no rumo da Psicanálise – de maneira ampla, para além do sucesso econômico dos consultórios individuais.

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