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Psicanálise

Blog profissional do psicanalista Pedro Corrêa

A era das empresas de terapia e o lugar da Psicanálise

Cresce no Brasil o número de empresas privadas de serviços relacionados à terapêutica. Através da publicidade criada por profissionais especializados, são ofertadas perspectivas que vão além da tradicional "cura" para doenças, sintomas e comportamentos incômodos, como: plenitude, bem-estar, sucesso profissional, amoroso, aceitação corporal, afetiva, sexual, etc. Com o crescimento destes serviços e do número de consumidores dos mesmos, cada vez mais psicanalistas encontram, ao participarem de seus catálogos de profissionais, oportunidades para receberem candidatos a uma análise e um meio para a subsistência.


O TechTudo, conhecido portal de análise de tecnologia, afirmou que a Zenklub “permite que os usuários agendem atendimentos online com psicólogos, terapeutas, psicanalistas e coaches [1]”. É evidente que a classificação “site”, “plataforma”, “startup”, “agenda online”, “health tech” entre outros rótulos, explicam pouco da natureza destes negócios. Na prática, são empreendimentos em busca de lucros extraordinários e retornos rápidos aos investidores. Antes mesmo da pandemia, que trouxe a generalização do atendimento online e das "plataformas", uma, a “FalaFreud”, já tinha recebido mais de 300 mil pessoas [2]. Após seguidas polêmicas em torno da cobrança de mensalidades para terapia e tratamentos por mensagem de texto — o que hoje, após a “poeira ter abaixado”, ocorre com rgrande liberdade –, a FalaFreud fechou carregando o rótulo de “WhatsApp de terapia” [3]. A empresa Vittude já tem mais de 600 mil pessoas cadastradas em sua plataforma e arrecadou, no primeiro semestre de 2022, R$35 milhões de reais para expandir suas operações [4].


A existência de conselhos de Psicologia e o assombro entre psicólogos causado pelas terapias com mensalidade e via mensagens de texto foram fatores determinantes para o cancelamento do registro da FalaFreud. Mas, assim como a Hidra de Lerna, que após ter cortada uma cabeça surgem outras em seu lugar, empresas parecidas com o FalaFreud nascem e crescem. O problema nunca foi a FalaFreud, ela foi apenas um espantalho. Os grandes lucros proporcionados pelas "empresas de tecnologia" em diversos outros setores impulsionam as novas plataformas de tratamento aos montes, e os conselhos de Psicologia se veem desorientados. Pelo lado dos profissionais da Psicologia, considero que "uberização da prática clínica" é o nome mais preciso para descrever o que está acontecendo.


Os “consumidores” e "clientes" das empresas, que antes dependiam da indicação direta de conhecidos ou do empenho pessoal para encontrar um terapeuta em catálogos, recebem hoje indicações por redes sociais e mecanismos de busca baseadas em sistemas de algoritmos. Por exemplo: quando alguém busca por "ansiedade", é quase certo que visualizará anúncios de empresas que ofertam tratamento para a ansiedade; e por aí vai. Ao ingressarem no website da empresa e no perfil dos terapeutas, os visitantes encontram informações fornecidas pelos próprios profissionais, assim como o que se tem dito sobre eles em sistemas de avaliações públicas com estrelas e comentários. Se antes todos os que chegavam ao consultório eram candidatos a uma análise, agora são os psicanalistas que, antes de terem contato com seus candidatos a analisandos, são candidatos; e precisam ser aprovados.


Com grande poder em mãos, exatamente por gerenciar o vínculo entre milhares de terapeutas e interessados em terapia – e pela possibilidade de construí-los com anúncios, websites, plataformas, aplicativos, conteúdo e equipes estruturadas pelo investimento de milhões de reais –, as empresas começam a avançar em direção à regulação dos métodos de tratamento. Definem, por exemplo, a duração das sessões, ou priorizam a máxima de que "o cliente tem sempre a razão", pressionando informalmente o profissional a agradar sempre. É um desafio e tanto para os psicanalistas manejar seus tratamentos nesse novo ambiente.


Não se trata aqui de travar um embate moralista, de lutar contra as empresas, contra o marketing online etc. Seria uma iniciativa inerte, fadada à derrota. A Psicanálise ganhou seu espaço na cultura adequando-se a diferentes contextos e desafios. No ano de 1918, marcado pela Primeira Grande Guerra, Sigmund Freud defendeu no V Congresso Psicanalítico Internacional, em Budapeste, a abertura da Psicanálise para inovações técnicas como maneira de responder a demandas que estavam sendo feitas à terapêutica. Freud era muito interessado e compreensivo com psicanalistas que inovavam, apesar de nunca abrir mão da arma da crítica, às vezes impiedosa, quando via algum tipo de ameaça à Psicanálise. Ademais, lançou-se a buscar financiamento público e privado para fundar policlínicas onde essas experiências pudessem ser desenvolvidas.


Ora, se foi possível sobreviver à guerra e, posteriormente, até mesmo à repressão política, nós, psicanalistas, devemos, no século XXI, entender de maneira precisa a nova realidade e oferecer respostas dotados de grande elasticidade. Nesse sentido, há uma grande responsabilidade que recai sobre nós. A nossa adequação ao espírito do nosso tempo precisa, acima de tudo, desenvolver da Psicanálise enquanto ciência independente, para ainda termos o direito de nos chamar "psicanalistas". Abandonar a independência, portanto também o rigor teórico, par abraçar o ecletismo técnico e panaceia de que todos os problemas do mundo se resumem à "saúde mental" é atacar a Psicanálise.



[1] Zenklub é confiável? Veja como funciona site para terapia online | Saúde e fitness | TechTudo

[2] FalaFreud: Aplicativo conecta pacientes a psicólogos (correiobraziliense.com.br)

[3] "WhatsApp da terapia" estreia no Brasil com mensalidade de R$ 299 | Exame

[4] Vittude, de saúde mental, levanta R$ 35 milhões para expandir no país - Pequenas Empresas Grandes Negócios | Startups (globo.com)